Tenho uma aluna que frenquenta as minhas turmas já faz quase dois anos – sempre na mesma disciplina. Não é uma disciplina que parece ser a mais fácil ou a mais difícil. Tenho a impressão de que, para os alunos, é apenas uma disciplina como qualquer outra (onde há um certo equilíbrio entre aprovações e reprovações). Ela não sabe, mas ocupa com frequência os meus pensamentos.
As pessoas falam que é fácil reprovar na engenharia. Isso é uma "verdade absoluta" entre os meus alunos, a qual sempre tento combater. No imaginário popular, qualquer coisa relacionada às ciências exatas deve ser difícil. No fundo, acho que a realidade é que temos uma deficiência muito profunda no ensino das ciências exatas: muitos acham que fazer contas e decorar fórmulas é ter habilidade na área. Como disse, é algo que tento combater – a matemática é uma linguagem utilizada para realizar uma leitura racional do nosso mundo; a física é a explicação da natureza através dessa linguagem. Como não achar tudo isso, de alguma forma, belo? Quando você incorpora essa ideia de fato, é difícil voltar atrás. O mundo da ciência deixa de ser assutador e passa a ser interessante, encantador. Acredito que, em partes, o papel do professor é mostrar isso para seus alunos. Dito isso, não posso deixar de falar que falhei miseravelmente com a minha aluna (a qual chamaremos, daqui para frente, de Bianca).
Lidar com a Bianca foi e é difícil. Logo nos primeiros contatos com ela, vi que ela não sabia operações básicas para alguém que está entrando em engenharia (como exponenciação e radiciação). A disciplina que ministro para ela não é de cálculo ou de física – é um pouco mais específica. É uma disciplina na qual, em geral, os alunos aprendem aquilo que precisam dentro dela, com excessão de alguma matemática básica do ensino médio... Básica, talvez, para o professor e para os alunos que tiveram uma boa formação. Com o tempo, fui percebendo como aquilo parecia ser de outro mundo para a Bianca.
Querendo ou não, você vai criando alguma intimidade com aqueles alunos que aparecem muito nas suas aulas ao longo dos semestres. O modus operandi da Bianca, desde o início, sempre foi o mesmo: ela começa o semestre me dizendo que vai passar, some pelo meio e me implora para que eu a aprove no final. O meu modus operandi também deve ser previsível para ela – começo o semestre determinado a ajudá-la, fico preocupado com ela pelo meio e acabo a reprovando no final. É a nossa dinâmica, de certa forma.
Ela claramente não queria estar em um curso de engenharia, e tudo bem. Mas percebo que, na realidade dela, existem poucas referências de pessoas que podem ser consideradas "de sucesso" com os nossos padrões atuais. Ela é visivelmente tímida, e já me relatou ter problemas familiares. Com a oportunidade de entrar na universidade, alguém provavelmente decidiu o que ela ia fazer e como ia fazer. Nessa escolha, algo muito importante ficou de fora: as habilidades e os interesses dela não entraram na equação do caminho que ela deveria trilhar.
No fundo, a Bianca é uma jovem perdida. Ela precisa de ajuda para sair da própria situação, e juro que me coloquei à disposição para ajudá-la, mas percebo que ela não sabe onde quer chegar. Ela só quer, a qualquer custo, não estar mais perdida. Infelizmente, há uma diferença entre querer sair do lugar e querer chegar à algum lugar – são vontades complementares. Ambas são para colocar a pessoa em movimento e tomar uma decisão.
Alguns meses atrás, a Bianca me mandou mensagem pelo celular. Ela tem o meu número, assim como alguns outros alunos – os quais adoram mandar mensagem (com altas chances de serem ignorados) na véspera das provas. Dessa vez, a mensagem que recebi foi diferente: a Bianca me mandou um áudio longo, com voz de choro, pedindo para que eu a aprovasse. Ela disse que precisava passar a qualquer custo na minha matéria. Isso, de alguma forma, me doeu. Doeu porque, em geral, "a qualquer custo" significa "a qualquer custo, menos estudando". Doeu também porque, no final das contas, ela me pediu isso com a maior vergonha e peso na conciência do mundo. Foi fácil perceber que era um pedido desesperado de socorro.
Sugeri pra ela uma segunda chance, uma avaliação "tudo ou nada". Ela topou. Não falei para a Bianca, mas peguei várias questões de trabalhos e provas que ela já tinha feito. Dei dias para ela fazer. Queria ver se, ao longo desses dois anos, ela aprendeu algo. Se eu consegui ensinar algo. No final das contas, ela me entregou a avaliação, mas ficou com uma nota muito baixa – bem longe do que seria necessário. No final das contas... eu reprovei a Bianca mais uma vez. Percebi que o desespero dela, por mais real que fosse, não foi o suficiente para fazê-la sair do lugar.
Me pergunto se não deveria tê-la aprovado. Não é o certo do ponto de vista profissional (e por isso não o fiz), mas acontece muita coisa em uma sala de aula. Quando você se importa com os alunos, você conhece a história deles. Você percebe que, de certa forma, influencia na vida deles (em escalas diferentes para alunos diferentes). Com o tempo, você também percebe que eles mexem com você.
O caso da Bianca, para mim, é muito particular. Toda vez que recebo o elogio de algum aluno, lembro dela – é uma forma de lembrar dos meus erros e tentar me manter humilde na minha jornada dentro da academia. Espero que, um dia, a Bianca tenha um "estalo" e mude a sua situação. Ela precisa da ação de alguma força que a coloque em movimento. Ao contrário do que diz a lei da inércia, no caso da Bianca essa força não tem que ser externa – ela tem que ser interna, tem que vir de dentro. Se não vier, ela vai ficar para sempre paralisada, para sempre em repouso.
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